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Influências africanas

Influências africanas
Com apenas 150 hectares de área terrestre, Gorgona é uma curiosa ilha do Pacífico colombiano que não conta com habitantes fixos, apenas 50 funcionários responsáveis pela preservação e exploração do turismo ecológico. Do total de “moradores”, 35 são negros de origens africanas. Uma excelente notícia para um país que ainda está descobrindo sua identidade negra e que já se posiciona na lista dos país

TEXTO E FOTOS EDUARDO VESSONI

Gorgona, na Colômbia, é uma curiosa ilha do Pacífico que não conta com habitantes fixos. Dos 50 ‘moradores, 35 são negros de origens africanas


Já dizia o conquistador espanhol Franscisco Pizarro que o minúsculo pedaço de terra, a pouco mais de 30 km da costa colombiana, era um inferno. Uma chuva constante sobre a mata fechada, abundância de serpentes venenosas e a presença de animais selvagens nunca vistos em outras partes. Séculos mais tarde, Gorgona se tornaria também o cenário para a mais perigosa das penitenciárias da Colômbia.
Atualmente, quem desembarca nesse paraíso natural de praias do Pacífico rodeadas por palmeiras nem se dá conta, diante de tantas opções de ecoturismo, que o nome Gorgona, dado pelo próprio Pizarro, é uma referência à bela medusa com cabelos de cobra da mitologia grega. Os assustadores animais rastejantes da região, conhecidos como Talla Equis por conta dos desenhos na pele em forma de X, ainda dão as caras em áreas mais afastadas do centro de visitantes, mas a emoção de fazer mergulho em piscinas naturais com corais e avistar golfinhos e imensas baleias jubarte são uma das melhores lembranças de quem visita o Parque Nacional Natural, criado em 1985.
Separada do resto do continente por selvas de vegetação densa, a ilha tem Guapi como principal porta de entrada, cidade continental localizada no sudoeste do departamento de Cauca. Os primeiros habitantes negros começaram a chegar ainda no século XVI, trazidos pelos colonizadores espanhóis que buscavam metais preciosos como o ouro. Bom… e o resto dessa triste história daqueles filhos arrancados à força da África você já conhece bem. Quem circula pelas ruas de casario simples de Guapi, localizado sobre palafitas à beira do rio que dá nome à cidade, tem a impressão de estar em algum povoado isolado do interior do segundo continente mais populoso do planeta.
Mulheres ainda lavam a roupa da família à beira das águas escuras do Guapi, as mesmas que servem para alguns banhos demorados; o silêncio das canoas só é quebrado pelo som das embarcações motorizadas que deslizam sobre canais que desembocam no Pacífico; e do interior dos estabelecimentos comerciais a cumbia, ritmo musical de origem colombiana, com evidentes influências africanas, completa o cenário
Alegria negra
A população ainda depende de setores primários da economia, como o cultivo de coco e milho, pesca e mineração. Mas o turismo na ilha Gorgona já tem dado um novo fôlego para esse povo negro localizado em um setor do país que só pode ser acessado por vias aéreas, de Cali, ou marítimas, a partir da vizinha Buenaventura. “É um privilégio poder trabalhar em um lugar onde eu possa aprender ofícios tão diferentes”, orgulha-se Fidernel Manzilla, 27 anos e filho de uma chola (indígena) e de um pai de antepassados africanos.
Canelazo, como é conhecido o atencioso jovem de sorriso longo, trabalha há três anos no Parque Nacional Gorgona exercendo funções como garçom, pintor e guia turístico. A satisfação em morar em uma área protegida de selva tropical e recifes de corais, ainda que por alguns dias do ano, é notada pelos turistas estrangeiros e nacionais que visitam a ilha, sobretudo nas rodas animadas ao redor do pequeno povoado.
O atendimento atencioso e as sonoras gargalhadas daquela população negra parecem ser a melhor alternativa para se esquecer que o litoral colombiano é considerado uma das áreas mais marginalizadas do país. A região também é famosa por ser um importante e concorrido centro de mergulho. A Estación de Buceo da ilha oferece a prática do esporte não só para mergulhadores profissionais, mas para iniciantes que passam por um minicurso de capacitação. Dos 62 mil hectares que formam o Parque Nacional Natural Gorgona, 97% se encontram em área marinha.
Já deu para imaginar a variedade de opções cenográficas? O Aquário natural Yundigua, uma piscina natural decorada com corais onde se realiza mergulho livre, e áreas como La Tiburonera e la Plaza de Toros são alguns dos cenários preferidos dos visitantes amantes do turismo sob a água. Em Gorgona, assim como a letra da música de Gerônimo Santana, “a força que mora n´água não faz distinção de cor”.
Por isso, a ilha é dos negros e dos paisas (como os brancos, em sua maioria turistas, são chamados) e de toda a população de animais marinhos que fazem do lugar um dos cenários mais exóticos (e, racialmente, democráticos) da Colômbia.

TEXTO E FOTOS EDUARDO VESSONI

Em frente ao portão da penitenciária de Gorgona, Fidernel Manzilla ( à esq. ) é filho de um chola e de um pai de antepassados africanos

Alcatraz colombiana

Portão por onde eram encaminhados os prisioneiros da temida Penitenciária de Gorgona, na Colômbia. A partir desse ponto, uma espécie de ‘corredor elétrico’ recebia os detentos

U ma triste parte da história local ainda insiste em ser lembrada, por mais que a natureza tente escondê-la entre musgos e imensas árvores. De 1959 a 1983, aquele solo de origem vulcânica foi sede de uma penitenciária de segurança máxima, onde estiveram isolados os mais perigosos criminosos. Considerada a Alcatraz colombiana, a prisão foi cenário de um violento sistema carcerário que incluía torturas, envenenamentos e isolamentos em celas solitárias que chegavam a durar até dois meses.
“A rotina neste lugar era muito dolorosa. Aqui, sobreviveram apenas os mais fortes”, conta Canelazo enquanto deixa as mesas do único restaurante da ilha para assumir os trabalhos de guia pelos pavilhões da antiga penitenciária, fechada por denúncias contra os direitos humanos. A atual empresa que possui a concessão para exploração de atividades turísticas na Ilha do Esquecimento, como era conhecida na época, tem deixado que a natureza selvagem local apague aqueles vestígios, mas é impossível deixar de se emocionar durante o que percorre áreas como a enfermaria, refeitórios, cozinha e antigas celas.
“A Penitenciária de Gorgona é um erro humano que temos que continuar mostrando para os visitantes. Mas a natureza já está recuperando o seu espaço e essa será a melhor lembrança”, diz William Silgado, administrador da Aviatur, empresa responsável por todos os serviços turísticos oferecidos na ilha, como hospedagem, alimentação e passeios náuticos.
A natureza esconde, mas também é exibida e oferece experiências únicas em todo o país. É local de reprodução e cria de baleias jubarte que, entre julho e setembro, podem ser vistas naquelas águas esverdeadas; é habitat de tubarões, golfinhos e de três espécies de tartarugas marinhas; macacos-prego de cara branca, bichos preguiça e o raro lagarto azul são algumas das espécies terrestres que podem ser vistas, com sorte, durante as caminhadas pela selva úmida; e uma infinidade de praias desertas garante ao lugar uma liberdade que em nada se parece aos duros anos em que as águas do Pacífico e a vegetação fechada serviam de intransponíveis grades naturais para os presos de Gorgona.
fonte: Raça Brasil

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