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Missa Afro – Parte 2

CESE PARA CELEBRAR O DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA AFRO
Missa afro-inculturada – parte 2
Como verdadeira missa, a missa afro é pascal: celebra a morte e a ressurreição do povo negro, na morte e ressurreição de Cristo”
D. Pedro Casaldáliga
Para maior compreensão deste artigo, é imprescindível a leitura do anterior. Ambos foram preparados com muito esmero, a fim de que trabalhemos nossas consciências e eliminemos nossos preconceitos a respeito da missa afro. No anterior, refletíamos sobre liturgia e inculturação. Neste, trazemos aos internautas algo sobre o surgimento da missa afro, sua profecia, desafios e perspectivas pastorais.
O nascimento da missa afro atesta a realização concreta de uma postura de Igreja comprometida com os menos amáveis, socialmente falando. Era visível o envolvimento e o comprometimento dos afrodescendentes na caminhada evangelizadora da Igreja e na transformação da sociedade, provando que não se deixavam abater diante da situação em que viviam. Alguns bispos, vivenciando a dimensão da profecia e reconhecendo a atuação dos afrodescentes, ousaram desenvolver um trabalho pastoral diferenciado. Dentre eles, destacamos: D. Hélder Câmara, D. José Maria Pires (D. Zumbi) e D. Pedro Casaldáliga. Em 1981, na cidade do Recife, estes bispos reunidos com dezenas de padres, convocaram todo o povo negro para celebrar a liturgia com um “rosto diferente”. Chamou-se “Missa dos Quilombos”. A partir daquele dia, muitas comunidades e grupos de afrodescendentes deram continuidade a esta bonita e comprometedora iniciativa. Isto aconteceu dois anos depois da Conferência de Puebla (1979), na qual a Igreja Latino-Americana e Caribenha assumia a opção preferencial pelos pobres, que, em sua grande maioria, eram afrodescendentes, convidando a reconhecer nos seus rostos as feições do próprio Cristo: “feições de indígenas e, com freqüência, também de afro-americanos, que, vivendo segregados e em situações desumanas, podem ser considerados como os mais pobres dentre os pobres” (Puebla 34).
Por que chamou-se dos Quilombos? É importante que entendamos esta realidade. Quilombo, em épocas passadas, significou refúgio de escravos que fugiam das casas dos “seus senhores”, por não aceitarem a situação de escravidão e aí constituíam uma sociedade alternativa, em que predominavam os valores da solidariedade, da liberdade, da igualdade, da fraternidade, do respeito mútuo e resgate da auto-estima, principalmente no que se refere ao ser pessoa. Surgiram muitos quilombos ao longo de todo o território brasileiro, mas o maior deles foi o Quilombo dos Palmares, que em 1695, época em que foi destruído, possuía cerca de 30 mil pessoas. O seu líder, Zumbi, foi morto no dia 20 de novembro, mas seu sonho se expandiu tornando-se realidade em todas as lutas do Povo Negro. Devido a este fato, este tornou-se o “Dia Nacional da Consciência Negra. Zumbi tornou-se ícone na luta pela vida, liberdade e dignidade das pessoas. Por isso também usamos muito esta data para celebrar. Celebramos em memória do Líder maior da causa afro – Zumbi dos Palmares – e das inúmeras lideranças martirizadas. Como discípulos missionários de Jesus, somos convidados a reconhecer o Reino de Deus presente também em ações como estas, em que acolhemos o diferente e nos enriquecemos mutuamente.
Mas nunca foi fácil para setores da nossa Igreja aceitar este tipo de celebração, pois pessoas desinformadas e resistentes à novidade trazida pelo Concílio Vaticano II,  “passaram a associar os instrumentos utilizados nas celebrações com os utilizados na macumba, no candomblé; a dança foi vista como um desrespeito ao lugar sagrado; a acentuação dos valores afro foi vista como um racismo ao contrário” (ROCHA, José Geraldo Teologia e negritude,188). Sabemos que o processo é lento e que as resistências sempre existirão, mas isso não deve desanimar os afrodescendentes na busca de concretizar aquilo que é proposto pela Igreja. Há um posicionamento muito edificante por parte dos nossos Pastores, principalmente com relação ao elemento dança na liturgia: “Dançar na liturgia é expressar e vivenciar o mistério celebrado no dinamismo do Espírito do Ressuscitado que nos insere no movimento de Jesus. É deixar que o mesmo Espírito harmonize nosso ser, nossas relações com os outros, com o universo e com o Senhor, tornando-nos um corpo, uma comunidade celebrante” (CNBB. Guia Litúrgico Pastoral, p. 90).
Caminha-se para um amadurecimento maior, principalmente no que se refere à compreensão sobre a verdadeira identidade da Igreja que, de forma alguma, se reduz a uma expressão apenas. O encontro com pessoas e estilos diferentes deveria nos levar a uma nova postura, expressão de um processo de conversão interior que valoriza o essencial, sem perder-se em coisas desnecessárias. Longe de querer colocar empecilhos, com Aparecida, devemos reconhecer que: “A Igreja, com a sua pregação, vida sacramental e pastoral, precisará ajudar para que as feridas culturais injustamente sofridas na história dos afro-descendentes, não absorvam nem paralisem, a partir do seu interior, o dinamismo de sua personalidade humana, de sua identidade étnica, de sua memória cultural, de seu desenvolvimento social nos novos cenários que se apresentam” (DAp 533).
A missa afro, portanto, ao mesmo tempo que resgata os valores da cultura afro na liturgia, torna-se momento de grande identificação com o projeto de Jesus, convidando a comunidade negra e a todas as pessoas a um processo contínuo de libertação-missão. Por isso, dizemos com Dom Pedro Casaldáliga que “quem celebra a paixão e morte do Senhor, acredita na libertação de todas as pessoas e povos. A sua Páscoa é a nossa páscoa. Na sua morte entram todas as mortes, na sua Ressurreição vivem, sobrevivem, todas as esperanças. Como meio privilegiado de inculturação, a missa afro vai abrindo caminho para diálogo ecumênico e inter-religioso. O afrodescendente, encontrando-se contemplado naquilo que ele cultiva, também se sente de dar um pouco mais de si para enriquecimento da própria Igreja. Sobre isso, o Papa João Paulo II, em seu discurso na abertura da Conferência de Santo Domingo (1992), insistia com os afrodescendentes: “Encorajo-vos a defender a vossa identidade, a ser conscientes dos vossos valores e fazê-los frutificar. A fé não destrói, mas respeita e dignifica as culturas, mesmo com as diferenças”.
Que estas celebrações possam contribuir para criar, dentro da nossa Igreja e no coração das pessoas, espaços de fraternidade e acolhida, para que, reconhecendo a ação de Deus, lhe sejamos fiéis por uma vida mais comprometida, coerente com o ser discípulos missionários de Jesus Cristo, para que todas as pessoas sejam respeitadas em sua dignidade.
Pe. Degaaxé
p/ Pastoral Afro-Campo Grande

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