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Missa afro-inculturada – parte 1

Missa Afro-inculturada
PREPARANDO A ARQUIDIOCESE PARA CELEBRAR O DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA AFRO
Missa afro-inculturada – parte 1
Desejo partilhar com os irmãos e irmãs que acessam o site da Arquidiocese, algo que irei desenvolver na reflexão homilética nas missas afro que teremos. Certamente há muitas dúvidas e preconceitos em torno do assunto. Alguém me perguntava: “por que tem que se chamar missa inculturada? A missa já não é completa? Para que então esse negócio de inculturada?”
A questão da inculturação na Igreja não é uma coisa forçada ou superficial, mas algo necessário, fundamental. É parte integrante do processo evangelizador. A Sacrosantum Concilium (documento do Concílio Vaticano II), ao definir a liturgia como fonte e expressão de toda a vida da Igreja (SC l0), recorda que a Igreja, em sua atividade missionária, ao se aproximar das culturas, é convidada a estabelecer um profundo intercâmbio de dons: ao levar a riqueza de sua liturgia, reconhece e assimila a riqueza dos valores culturais. Neste sentido, conforme recorda o documento A Liturgia Romana e a Inculturação: A Igreja “é chamada a congregar todas as pessoas, a falar todas as línguas e penetrar todas as culturas”. E assim o próprio documento vai definir inculturação como “encarnação do Evangelho nas culturas e, ao mesmo tempo, a introdução dessas culturas na vida da Igreja”. Deste misterioso intercâmbio deveria nascer uma nova cultura,uma “cultura cristianizada”. Queremos ter muito presente este processo ao nos referirmos à cultura afro-descendente. Desde o início da evangelização em nossas terras, foi negada ao povo negro a possibilidade de participar da liturgia com os valores de suas culturas. Esta situação jamais permitiu uma participação plena dos afro-descendentes, pois a liturgia não assimilava nada da nossa cultura.
A Sacrosanctum Concilium, quando se refere à inculturação, pede, nos números de 37 a 40, a adaptação da liturgia à mentalidade dos diversos povos e culturas. Isso nós vamos perceber também nos documentos do Magistério, particularmente na América Latina e, com mais evidência, em Santo Domingo, o qual fala da inculturação do Evangelho, colocando a liturgia como lugar privilegiado onde esta pode acontecer (SD 230-243). Esta realidade é retomada por Aparecida com um significativo reconhecimento: “esforços têm sido feitos para inculturar a liturgia nos povos indígenas e afro-americanos” (DAp 99). Reconhece-se que tem sido um caminho tenso, por vezes conflitivo, contudo, rico e necessário. A inculturação é vista ainda como uma riqueza, pela presença de novas expressões e valores, manifestando e celebrando cada vez melhor o mistério de Cristo, conseguindo unir fé e vida e assim contribuindo para uma catolicidade mais plena (DAp 479) e mais consciente.
A própria CNBB reconhece que “as celebrações a caminho da inculturação em meios afro-brasileiros têm encantado por sua dinâmica, beleza e fidelidade aos sagrados mistérios celebrados. Celebrações, Eucaristias, batizados, matrimônios, ordenações, votos religiosos e bênçãos têm sido ocasiões importantes para a prática da inculturação litúrgica tão estimulada pela Igreja, pois ela incide sobre a vida comunitária e ministerial, sobre a formação e reflexão teológica (CNBB, Pastoral afro-brasileira: princípios de orientação, 61). Assim, As comunidades afro celebram a fé, a vida, identificando-se com o que se celebra. Esforçam-se para que o ambiente seja de acolhida, como de fato acontece. Sentindo-se acolhida, a comunidade celebra melhor, partilha a vida com mais confiança, experimentando um grande aconchego de irmãos e irmãs reunidos na casa do Pai; resgatam os valores que sempre fizeram parte da vida dos Antepassados e de suas lideranças “martirizadas”. São valores profundos que vieram ainda mais enriquecer a vida litúrgica da Igreja. Queremos citar alguns dos mais explorados e que realmente estão na base da cultura afro:
1- A Natureza: o povo negro é um povo muito ligado à natureza, o que o leva a celebrar com abundância de água, fogo, folhas, terra, flores…
2- Os Antepassados: é de grande importância celebrar os antepassados, pois eles também fazem parte da caminhada e continuam fazendo história com a comunidade.
3- A Festa: esta deve acontecer de fato para mostrar que a vida deve ser diferente, deve ser partilha, gratuidade, alegria e, num sentido escatológico, aperitivo do grande banquete no reino definitivo.
4- A Dança: celebra-se não somente com a cabeça, com o cérebro, mas com todo o corpo. O corpo, sendo expressão do divino, faz com que a fé seja manifestada na alegria e com muito gingado. Os atabaques têm um papel fundamental; quando eles tocam, o corpo mexe, louvando a Deus. Os cantos trazem uma mística; não precisam ter muita letra, mas muita música.
5- A Comida: Para as comunidades afro é impossível celebrar sem comida, pois comer juntos é entrar na intimidade do outro, é partilhar a vida. Isso acontece através da pipoca, da canjica, da mandioca, do amendoim, do angu, do bolo de fubá, etc.
Em toda celebração cristã, Jesus Cristo é o centro. Sendo o princípio e fim de todas as coisas. Numa visão inculturada da teologia, para as comunidades afro, ele é o Antepassado Maior que permite a cada liturgia, celebrar seu nascimento, morte e ressurreição. Ele tomou sobre si toda sorte de dor, escravidão, discriminação, preconceito, racismo e os superou. Dele, a comunidade recebe a vida que não morre jamais e é nele, portanto, que ela encontra forças para lutar contra todos esses males. É no seu sangue derramado que a comunidade encontra presente o sangue de Zumbi dos Palmares, da escrava Anastácia e de todos os mártires da causa negra. Como Jesus se identifica com todos os marginalizados, podemos contemplar nele o rosto de todos os negros e negras e assim se pode celebrar as dificuldades e conquistas da comunidade negra, colocando no centro o mistério de Jesus Cristo morto e ressuscitado, alimentando o desejo de contribuir sempre mais para a realização dinâmica do seu reino. Por isso essas celebrações são regadas com muita animação, muitos cantos, muita dança, muita comida, palavras e gritos de dor e alegria.
Almejamos que, diante do que já foi conquistado, diminuam-se as resistências, a fim de que a riqueza do Reino de Deus, manifestada através destas celebrações, não fique impedida de acontecer. Preparemo-nos, então, para o que está por vir e celebremos juntos, com fé, o axé que vem do Deus Libertador e Salvador, que nos torna sempre mais irmãos e irmãs.
Pe. Degaaxé
p/ Pastoral Afro-Campo Grande

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