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Bahia continua sendo uma terra muito perversa e racista

Vovô: ‘Bahia continua sendo uma terra muito perversa e racista’

Para Vovô do Ilê Aiyê, não existe um trabalho de resgate da memória de Zumbi. ” Até nas escolas ainda existe muita resistência dos professores que também não estão capacitados”, diz o líder comunitário


Nesta entrevista, Vovô fala sobre carnaval, racismo, segregação, desaparecimento dos afoxés e Mohamed, o jovem de Guiné que fugiu para o Brasil em um navio com o sonho de virar jogador de futebol, e que acabou sendo adotado por Vovô. ‘Ele está bem adaptado. Está até namorando, já!’, disse o líder do Ilê Aiyê, que também comentou como está  o bloco e o terreiro Axé Jitolu após morte de Mãe Hilda. ‘Esse vai ser o primeiro carnaval sem a presença de minha mãe. A gente ainda não sabe como vai ser festejar sem ela’.
Fonte: Midiã Santana/Correio da Bahia
 Com tantos debates e discussões sobre a difusão das raízes afro no país, como você vê atualmente a imagem do negro na sociedade?
Nós podemos dizer que avançamos, que o saldo está positivo. Mas não posso dizer que me sinto contemplado. Muita coisa ainda tem que ser feita. A Bahia continua sendo uma terra muito perversa, muito racista e que segrega muito. Hoje, temos muitos negros capacitados na política. Também é importante ter negros no poder, precisamos fazer nossa parte, tomar mais gosto pelo poder, pois ainda temos aquela coisa do ranço da escravidão que nos persegue. Veja o Ilê. Quando surgiu, causou um alvoroço muito grande, e até hoje nós somos referência. E é isso que é preciso, lutar mais. Nós estamos um pouco acomodados, nos conformamos com muito pouco. Isso tem que mudar. 
Mas, como é esse racismo que, segundo você, ainda existe na Bahia?
O racismo é algo muito elaborado e organizado. Com o passar dos tempos, ele mudou de forma. Agora, não agridem, não usam palavras. Eles fazem ações, agem através de fachadas e temos que encontrar formas de combater isso que impede o nosso crescimento na educação e até mesmo na saúde. São várias formas sutis que aparentemente são como ‘correntes invisíveis’. Na mídia, por exemplo, eles não dão divulgam informações sobre blocos afros. Na Bahia, no Brasil, não há conflito racial porque todo mundo acha que isso está certo. A gente não consegue se unir. 

 Em mais de três décadas de existência, o Ilê Aiyê continua firme, enquanto outros acabaram no esquecimento e pararam de desfilar. A que você atribui esse desaparecimento?
Nos blocos Afro faltam investimentos e patrocínio. O Ilê Aiyê consegue sobreviver nessa resistência, que se deve à cumplicidade do povo, que está sempre nos acompanhando e gosta da nossa proposta. Essa cidade é racista, é desigual. Também tem a questão de não ter estrutura para conseguir se organizar.

O Ilê, hoje, é estruturado e com uma base sólida. Antes dessa consolidação, quais foram as maiores dificuldades? 
Bem, o Ilê foi um bloco que desde o inicio conseguiu colocar na cabeça das pessoas que, se elas querem um bloco bom e bonito, têm que pagar. Essa história de que tudo de negro é filantrópico não existe. Vivemos em um país capitalista. Você tem que pagar funcionários, alugar trio, tem que pagar almoço, pagar porteiro, os encargos… Você não pode competir no Carnaval se sair com um ‘triozinho’ pequenininho. Somos cidadãos e precisamos ter um espaço de qualidade. Conseguimos manter essa mentalidade desde o inicio. Se não fosse isso, seria bem mais difícil. O Ilê gera negócio, emprego, renda, cursos profissionalizantes. Além do mais, Carnaval é muito caro. Precisamos ter recursos.


Mohamed está bem adaptado e já tem até namorada
Neste ano, você adotou o Mohamed e impediu que ele fosse extraditado de volta à Guiné. Passados mais de seis meses, como está a adaptação dele ao país e o que mudou na vida de vocês após a adoção?
Ele está bem, está estudando, jogando futebol, que é sua paixão, mas… Ele também se apaixonou pelo Bahia, aquele falso (risos). Ele mora no Curuzu, com as tias e os primos e fica lá no Ilê, tomando curso de informática e português. Lá no Curuzu é melhor, porque tem muito mais movimento do que aqui onde moro (bairro do Iapi). Ele está bem adaptado, está até namorando, já! (risos). Ainda não conheci a família dele, mas sei que ele tem apenas um irmão gêmeo, um tio e uma avó. 

Sobre o Dia da Consciência Negra, muitos negros não sabem o motivo da data, nem sequer fazem um momento de reflexão. Como você enxerga isso? 
Há pouco tempo, essa data não era muito celebrada. Comemoravam mais o dia 13 de maio. Mas já passaram a reconhecer mais, tem a caminhada que sai do Campo Grande… Já estão sendo realizados mais eventos, como a peregrinação para a Serra da Barriga em Palmares, terra de Zumbi. Porém, tem gente que não tem muito conhecimento e até conseguirem mudar a representação do nome Zumbi. Muitos achavam que era uma assombração, um bicho feio, uma coisa assustadora e diziam as crianças ‘se não for dormir vou chamar o Zumbi’. 

Não se tem feito um trabalho de resgate da memória dele, que foi um herói nacional. O próprio governo tem que se responsabilizar a não falar de Zumbi só no dia 20 e mês de novembro. Tem que ser dito no dia a dia, nas escolas. Mas até nas escolas ainda existe muita resistência dos professores, que também não estão capacitados. 

Voltando ao assunto carnaval, como estão os preparativos? Qual será o tema do bloco para 2010? 
O tema vai ser Pernambuco, mas também iremos falar sobre revoluções de países africanos, o negro no poder, além de apontar alguns estados brasileiros como referências africanas, como Bahia e Maranhão. Escolhemos Pernambuco porque é um lugar que tem muitos negros e muitas manifestações do recôncavo durante o ano. Vamos trazer maracatus e bonecos gigantes, para fazer uma segunda de Carnaval muito bonita. Sem esquecer que esse vai ser o primeiro Carnaval sem a presença de minha mãe. A gente ainda não sabe como vai ser festejar sem ela, mas com certeza será um Carnaval com muito brilho. 


Vovô segura troféu com imagem de Mãe Hilda que recebeu na Câmara
Há quase dois meses o Ilê e a Bahia perderam Mãe Hilda. Conta um pouco da importância da matriarca e como ficou o grupo e o terreiro Axé Jitolu após a perda? 
Ela era uma pessoa muito presente na minha vida e na vida do Ilê. No dia-a-dia, não fazíamos nada sem consultá-la. E ela sempre estava lá para nos dar uma orientação. Então, isso ainda é muito novo pra gente. Essa semana teve uma homenagem para o Ilê, uma Sessão Especial na Câmara dos Vereadores, em que ela também foi homenageada em um troféu. Nesse troféu, estava estampada a imagem dela. No dia do aniversário ela também foi homenageada e com certeza será homenageada no Carnaval.

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