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A celebração que ainda gera polêmica no catolicismo

A celebração que ainda gera polêmica no catolicismo

TEXTO E FOTOS CÍNTIA CRUZ

A celebração, que atrai pessoas de diferentes religiões, chama logo a atenção por sua decoração. As estampas colorem e deixam o ambiente mais agradável; no quadro da Santa Ceia apóstolos negros; no fundo do altar o retrato de Zumbi dos Palmares; em vez de piano, atabaques; todos vestem suas túnicas estampadas; a cesta de oferendas é enfeitada com fitas com as cores que representam o continente negro… É a missa afro que vai começar!

Faltam alguns minutos para as seis da tarde. Um grupo de mulheres se reúne na Comunidade Católica São José, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. A igreja faz parte da Paróquia São João Batista, composta por 15 comunidades. O grupo compõe a Pastoral Afro e a pauta da reunião é: promover evangelização e atuar na comunidade. Um homem se aproxima em silêncio. Ele cumprimenta todos os presentes e senta-se próximo ao grupo. É o Frei Athaylton Jorge Monteiro Belo, da Ordem dos Frades Menores (OFM), mais conhecido como Frei Tatá. A reunião termina e rapidamente o espaço vai sendo arrumado para a próxima atividade que acontece na Comunidade São José há 13 anos: a missa afro, celebrada sempre no primeiro domingo de cada mês. É um dos trabalhos da Pastoral Afro, que surgiu em 1988 por ocasião dos 100 anos da Lei Áurea, quando a Campanha da Fraternidade teve o tema Fraternidade e o Negro, e cujo lema era Ouvi o clamor deste povo.


Sacra ou profana?
A celebração que ainda gera polêmica no catolicismo

TEXTO E FOTOS CÍNTIA CRUZ

A socióloga Ana Claudia Penha: “Missa afro não é para adeptos de religiões afro-descendentes”

É como estar em casa
Frei Tatá acredita que esse trabalho faz com que o negro sinta-se negro dentro da Igreja, algo que não acontecia antes. “Por razões históricas e culturais, os negros estavam na Igreja mas não tinham espaço, tinham que ficar em pé, não podiam ser padres, acreditava-se até que eles não tinham alma. Hoje, o que não se podia pensar há um século já acontece. Temos mais bispos negros do que no passado, mas ainda é pouco, porque são mais de 400 bispos no Brasil”, explica o sacerdote. A forte presença africana faz com que negros e pessoas de religião de matizes africanas frequentem a missa. Frei Tatá, porém, garante que a semelhança é apenas com a cultura do continente negro. “Tem atabaque, falamos de Olorum, mas as pessoas sabem que esse espaço é definido. A Igreja conseguiu legitimar”. Todo o rito é marcado por muita cor, música e dança. Na hora do ofertório, mulheres vestidas com túnicas estampadas dançam e levam frutas e doces para o altar. A dança é outro traço cultural africano resgatado pela Igreja: “Na África do Sul se faz política dançando. A Igreja Católica tem que olhar para as suas raízes. Romaria, alegria do povo, diversão e amor ao santo”, afirma.

Acima de tudo, a missa afro é uma celebração repleta de cores, música e dança
Nem tudo são flores
Apesar de ser legitimada como rito católico, a missa afro agrada candomblecistas e umbandistas. A ialorixá Olídia Lyra da Silva – conhecida como Mãe Torody de Ogum, do Ilê Axê Ala Koro Wo – acredita que o culto seja o caminho católico para que o homem e a mulher negra se sintam bem: “Nos faz sentir representados. Durante minha infância toda não sentia a aproximação do negro com Deus, não percebia imagem do povo negro naquela oração. A população negra quer uma Igreja com a cara dela. Nós acreditamos num Deus de alegria que alimenta, acolhe, canta e dança. Esse Deus que tem na expressão corporal sua fé”, explica. Mas nem tudo são bênçãos nessa história. A celebração recebe críticas de vários setores da sociedade. A socióloga Ana Cláudia Penha defende que seja um artifício utilizado pela religião católica para absorver símbolos e adeptos de religiões afro-descendentes, ainda que a missa não estabeleça relação com nenhum ponto dessas religiões. “Pelo contrário. Essa prática acentua a tendência sincrética ao perpetuar, de forma sutil, a ideia de Deus e a Divina Trindade”. Em sua análise, Ana diz que há uma relação de superioridade do celebrante católico frente aos fiéis que, na maior parte do tempo, se colocam em uma postura de agradecimento por estarem sendo recebidos naquele espaço sagrado. “Isso se deve à frequente marginalização vivenciada pelas religiões afro-descendentes, acusadas de magia e feitiçaria, além da repressão histórica sofrida por seus adeptos”, garante. Um dos exemplos que ela cita é a oração do Pai Nosso, que não é o mesmo que uma reza para Olorun, Olodumare ou para Oxalá (diferentes nomes para o Deus supremo no candomblé). “São diferentes cosmogonias. A missa afro é para católicos africanos ou afro-descendentes católicos e não para adeptos de religiões afro-descendentes”, conclui.

O popular Frei Tatá, da Ordem de Frades Menores (OFM), um dos poucos bispos negros do Brasil

Preconceito inexplicável
As críticas à missa afro também partiram de dentro da própria Igreja por segmentos que acreditavam que tratava-se de uma estratégia para conseguir adeptos perdidos em função do crescimento de igrejas evangélicas. “Nos últimos 20 anos, os críticos arrasaram o culto afro, pensando que seria a Igreja querendo segurar negros”, comenta Frei Tatá para, em seguida, rebater as críticas. “Enquanto a igreja evangélica divide para fora, a católica divide para dentro. Tem que haver um ecumenismo dentro da própria Igreja”. As comparações com religiões africanas incomodam alguns fiéis. É o caso de Marlene Alves da Costa, que frequenta a missa há mais de seis anos e também integra a Pastoral Afro. “Não gosto quando criticam. Fazem comparações por causa do atabaque que é utilizado, mas não tem nenhuma relação”, conta. O Frei Alex Rodrigues, da Paróquia São João Batista, explica que, embora sejam utilizados elementos africanos na missa afro, a doutrina católica é a mesma que existe numa missa tradicional. “O Deus é único. A consagração, o ato penitencial, o ofertório não são diferentes”. Mais do que vir de outros segmentos religiosos, ele acredita que o preconceito vem da própria sociedade e às vezes, um fiel discrimina o outro, que logo vai embora. “Mas no fundo, a Igreja está de braços abertos para buscar a união e a comunhão”, ensina.



Fonte: Revista RAÇA Brasil

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