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Artistas da cidade cobram políticas públicas e reclamam do preconceito que enfrentam

Artistas da cidade cobram políticas públicas e reclamam do preconceito que enfrentam



Izabel Toscano
Publicação: 15/11/2009 09:38

Reconhecimento e respeito. São duas palavras cravadas na bandeira empunhada pelos artistas negros. Não importa onde eles nasceram. De onde vieram. O fato é que com cabelos trançados, soltos ou revoltos, sorriso rasgado e gingado inconfundível eles se encontraram no Distrito Federal. E aqui lutam para manter vivas suas tradições e estilos. Eles usam armas de grande alcance que atingem direto corações e mentes das pessoas: música cantada com batuque e rimas; cores que ensinam nos muros e telas; letras que viram versos e orações. “Cultura negra é cultura brasileira”, brada orgulhoso Carlos Pacheco, pesquisador da música afro-brasileira.

“O Dia da Consciência Negra deveria ser feriado aqui como é em tantas cidades do Brasil”, diz GOG, rapper

Nos últimos dias, palestras e eventos culturais vêm ganhando força no Distrito Federal e no país por conta do Dia Nacional da Consciência Negra, na próxima sexta-feira. Mas para artistas, músicos, escritores e pesquisadores, todo dia é dia da cultura negra também.

“A arte negra tem sido uma referência ambivalente. Ao mesmo tempo em que é enaltecida pela militância como forma de resgate dos valores negros, também é apropriada pela indústria cultural, a qual cria a falsa ideia de que o consumo de bens culturais dos negros legitima a ‘democracia racial'”, destaca Nelson Olokofá Inocêncio, professor do instituto de artes e coordenador do núcleo de estudos afro-brasileiros da Universidade de Brasília (UnB), no livro Consciência Negra em Cartaz.

“O Dia da Consciência Negra deveria ser feriado aqui como é em tantas cidades do Brasil (apenas 360 dos 5,5 mil municípios). Não existem políticas públicas para incentivar nossa arte”, disse Genival Oliveira Gonçalves, o rapper GOG. Para ele, os espaços culturais de Brasília ainda são preconceituosos. “São concedidos, mas não com respeito. Não temos teatros nas cidades do DF. Tudo é no Plano Piloto. Não temos apoio financeiro”, lembrou GOG.

“Necessidade”

A coordenadora do Movimento Negro Unificado no DF, Jacira da Silva, reforça: “A cultura negra é questão de necessidade básica. É entretenimento, educação e conscientização. A falta de espaço é fruto do racismo, de achar que o que vem do afro é exótico. Queremos apresentações com contrato, pagamento em dia e editais específicos”, reclama.

Carioca radicada em Brasília desde 1990, Cristiane Sobral foi a primeira negra a se formar em bacharelado em interpretação teatral da Universidade de Brasília (UnB), em 1998. Tornou-se professora e montou o grupo Cabeça Feita, há 10 anos, com atores negros e mestiços.

“Eu procurava uma dramaturgia sem fazer o estereótipo: o negro sempre aparecia como escravo e a mulher como símbolo sexual. Eu queria um espaço onde não se teria cor.” O grupo rodou o país e fez temporadas em Angola. Justamente o que a cantora Ellen Oléria lamenta: “A cidade tem músicos, instrumentistas e artistas negros incríveis. Mas, são reconhecidos só lá fora.”

O tema também impulsionou o professor Carlos Pacheco, que foi regente da Orquestra Sinfônica de Goiás, a pesquisar a música negra. “Vi que a verdadeira música brasileira estava se distanciando da origem, negra e indígena, restando apenas influências europeias e norte-americanas”, avalia.

O jovem rapper

Anderson Carlos Cardoso Medeiros tem 15 anos e é aluno da 5ª série do Centro de Ensino Fundamental 3 de Taguatinga, mas o rap que entoa é de uma sinceridade lancinante. Sinceridade, sobretudo, de um jovem conhecedor das mazelas sociais que afetam a raça negra.

Ele se aproximou da música depois que fez um curso a pedido da mãe. “Eu nem curtia rap, mas um professor pediu para eu fazer. Escrevi sobre meu padrasto e minha mãe, que às vezes brigavam”, conta. Daí a participar da coletânea Tudo que fizeres ao adolescente III, com os alunos da Granja das Oliveiras, foi um pulo.

Em seguida, o pequeno rapper compôs Todo negro tem o seu valor, em que cita o mítico ex-presidente sul-africano Nelson Mandela. “Fiz para o Dia da Consciência Negra”, explica. A bisavó Luiza Fonseca orgulha-se: “Ele está iniciando. Mas espero que dê certo, porque a música tem sido boa pra ele”.

Todo negro tem o seu valor

“Abertamente eu vou falando pra você, parar e pensar,
porque os negros não conseguem um bom lugar
é só você olhar nas notícias dos jornais
o sofrimento de Nelson Mandela nos musicais (%u2026)
(%u2026) Não julgueis para que não sejas julgado
Por que quem julga, tem um conceito errado.
Por esse quadro, esse recado, para que no futuro os meus filhos não sejam maltratados”

Cultura na raça

Para além das fronteiras do DF, a cultura afro-brasileira borbulha, é tema de debates e encontros. Mas, assim como na capital do país, ainda continua restrita a grupos do movimento negro. “Já temos ações afirmativas, movimentos artísticos e culturais. Temos que mostrar a nossa cara. Mas é preciso que a sociedade também entenda a importância dos negros para a nação”, afirma Vera Veronika, pedagoga e presidente da organização não-governamental Acesso, que trata da questão racial e da cultura hip-hop.

Exemplos expressivos de arte negra no país não faltam. As letras contundentes, enérgicas e fatalistas do rap, os movimentos arriscados e velozes dos dançarinos e a vitalidade dos DJs. Elementos do hip-hop e da cultura afro-brasileira que se expandiram. Mas se engana quem pensa que as manifestações artísticas da raça negra se limitam a isso.

Nelson Maca, professor de literatura brasileira na Universidade Católica de Salvador e membro do grupo de hip-hop Blackitude, explica que os movimentos culturais negros buscam independência estética e integração social. “O hip-hop consegue equilibrar arte e contestação. Porém, não tem como fazer arte sem integrar o negro na sociedade. Por isso, nos expressamos sempre de maneira combativa, engajada”, explica.

A dramaticidade e o ritmo notórios do rap também aparecem com vivacidade na literatura. “A poesia negra está num momento espetacular. Temos os baianos José Carlos Limeira e Landê Onawale e o carioca Éle Semog, por exemplo, atuantes em saraus. Minha maior aposta para a nossa arte é na poesia. É acessível e traz um discurso assertivo, mais direto”, destaca. No teatro brasileiro, nomes como a gaúcha Vera Lopes, do grupo Caixa Preta; e Ângelo Flávio, diretor da companhia teatral baiana Abdias Nascimento, mostram a força da dramaturgia.

Educação cultural

Vera Veronika, do grupo Acesso, mora em Valparaíso de Goiás e de lá milita pela implantação da Lei nº 10.639/03 na educação formal, em Brasília. Apesar de legitimada, a lei estabelece que instituições de ensino fundamental e médio implantem no currículo escolar a história e cultura afro-brasileira. O que ainda não ocorre na maioria das escolas.

“No Dia da Consciência Negra, o aluno consegue entender a nossa parcela, que está sem voz, que não consegue atingir a todos. Infelizmente, o dia só é lembrado quando chegamos nos meses de outubro e novembro. Para nós, negros, a data é lembrada todos os dias”, lembra Vera.

Para a pedagoga, os movimentos artísticos e culturais têm ajudado na afirmação da cultura afro no Brasil. Em contrapartida, constata com desânimo que ainda existe racismo em um país de tanta diversidade. “A mídia não legitima nossos movimentos, porque falar que o Brasil é racista não dá lucro. Ser mestre em educação não é fácil. Comecei cantando rap, uma linguagem que nos dá liberdade de expressarmos nosso protesto. Ainda assim, enfrento resistência e preconceito para revalidar meu mestrado feito na Espanha aqui em Brasília”, lamenta.

Contra a fome

A Acesso atua em Brasília e no Entorno sob demanda e não possui sede própria. De amanhã até 16 de dezembro, a organização promove a iniciativa DJs contra a fome. A arrecadação de alimentos passará por seis instituições de ensino (duas escolas públicas, duas particulares e duas instituições de Ensino Superior). Atualmente, o grupo elabora uma cartilha sobre a Lei nº 10.639/03, que será destinada a professores de ensino fundamental e médio.

Para saber mais
Resistência

Zumbi foi o grande líder do maior e mais duradouro núcleo de resistência negra à opressão colonial – o Quilombo dos Palmares. Ele foi o último chefe do abrigo de negros, brancos pobres, índios e mestiços que chegou a ter cerca de 20 mil habitantes. Em 1694, o quilombo começou a ser destruído.

O líder teria sido morto em 20 de novembro de 1695. Por isso, e para lembrar a resistência do negro à escravidão, o movimento negro instituiu, em 1971, a data como sendo o Dia Nacional da Consciência Negra, em confronto ao 13 de Maio, Dia da Abolição da Escravatura, assinada pela princesa Isabel em 1888.

Artigos
Entre usos e abusos

» Nelson Olokofá

Compreender as artes negras no Brasil requer certa habilidade no sentido de saber lidar com o conjunto de significações que estão às suas voltas. É necessário interpretar os usos e abusos que se estabelecem em relação às performances negras a depender dos interesses envolvidos.

Já são velhas e conhecidas as estratégias desenvolvidas, por exemplo, para mascarar ou minimizar as tensões existentes entre negros e brancos no país. No processo de afirmação do mito da democracia racial estão implícitas algumas práticas, alguns usos abusivos das culturas negras com o intuito de justificar uma pretensa harmonia, apesar das desigualdades materiais e simbólicas.

É o que ocorre com a música negra, com as danças e outros eventos. A crença de que somos uma sociedade bem resolvida no que concerne às relações raciais constantemente encontra respaldo em afirmações corriqueiras. Se brancos participam das culturas negras, desfilam em escolas de samba, jogam capoeira, logo tudo isto evidencia que não possuímos qualquer problema nesta seara.

Podemos entender isso também como um sofisma, pois o fato concreto de termos pessoas brancas vinculadas a determinadas agremiações afro-brasileiras não elimina as contradições do cotidiano. Não é necessariamente o fato de gostar do trabalho de uma Clementina de Jesus, de uma Ruth de Souza, de um Heitor dos Prazeres que torna uma pessoa menos contaminada pelo racismo. Para superar o racismo é preciso enfrentá-lo coletivamente. Esta é uma outra perspectiva.

Sem querer reduzir o tema a polarizações creio que o fundamental é nos questionarmos sobre os usos e abusos das artes negras, para além do olhar ingênuo.

Nelson Olokofá Inocencio é professor do Instituto de Artes e
coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UnB

História esquecida

» Patricia Lira Ahualli

Brasil, que país é esse que discrimina a sua própria origem e não valoriza sua cultura? Brasileiro adora feijoada, gosta de samba, pagode e axé. Tombou-se o acarajé como patrimônio cultural do Brasil, orgulha-se do carnaval com suas lindas fantasias, trabalhadas muitas vezes com miçangas, palha-da-costa, ala das baianas, baterias…

De onde surgiu tudo isso? Quantos conhecem a história do samba que nasceu nos fundos dos terreiros de candomblé com seus atabaques e agogôs, instrumentos utilizados para invocar os orixás? As pessoas comem acarajé e não sabem que ele é uma comida oferecida para o orixá Iansã.

Qual a origem da dança afro, da capoeira, do maculelê ? Muitas vezes a intolerância, a discriminação racial, religiosa e cultural dão-se em função da falta de conhecimento das manifestações culturais e religiosas. E o que está sendo feito para mudar este contexto?

Em Brasília, capital do Brasil que deveria ser exemplo de valorização e respeito à cultura nacional, terreiros são demolidos sem explicação alguma. Ações efetivas para o cumprimento da Lei nº 10.639, que trata da inclusão do ensino de história da África e da cultura afro-brasileira nas escolas, são pouco visíveis ou invisíveis.

Algumas iniciativas isoladas são ainda incipientes e subsidiadas pelo governo federal. É por meio da cultura, da educação que um país pode transformar sua história. Acorda, Brasília! Fica esperto, Brasil!

Patricia Lira Ahualli é integrante do Centro de
Integração Afro-Brasileiro e iyáegbé da casa Ile Axé Idá Wurá

Publicado no Correio Brasiliense

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