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“Crioulo é o que nasceu na terra”

Ator, pesquisador e produtor cultural, Haroldo Costa relança livro que aborda a situação do negro no Brasil

Com o fim do AI-5 e o início da redemocratização após o golpe militar de 1964, ressurgia nos diversos segmentos da sociedade a possibilidade de discutir abertamente suas questões. Não foi diferente com o movimento negro. Nesse contexto, o ator, escritor e produtor cultural Haroldo Costa, hoje com 79 anos, organizou o livro de depoimentos Fala, Crioulo! (Record, 336 págs.). 

Com a comemoração dos 120 anos da Lei Áurea, atualizou o livro acrescentando novos depoimentos e mantendo alguns do livro original.


Os 27 anos que separam as duas versões mostram uma mudança no comportamento social do negro.

– Antigamente tinha aquela mística de que o negro quando evoluía queria casar com branca e loura, pensando em ascensão social. Atualmente há um grande número de profissionais liberais e essas pessoas chegaram onde chegaram à custa de muito sacrifício e luta. Elas sabem que existem como cidadãos – diz.

Para Haroldo Costa, o mais importante é que haja um constante aumento da autoestima do negro.

– O dreadlock não é só um modismo. É consciência.

O autor recebeu a reportagem em sua casa na Gávea, bairro de classe média alta da zona sul do Rio, decorada com máscaras e estatuetas africanas e obras de arte de amigos como Carybé, Aldemir Martins e de seu parceiro Lan, para tentar responder à pergunta “que ainda se impõe”, como diz na introdução do livro: o que é ser negro no Brasil?

O que é ser negro no Brasil?

Haroldo Costa – (Risos.) Olha rapaz, é um negócio meio complicado. Até hoje sofremos a consequência da abolição malfeita. Foi uma grande campanha, do tipo Diretas, Já! que juntou todo mundo, preto, branco, mulato, português. O problema foi depois, já que não houve a regulamentação. A lei tem dois artigos e fim de papo. Abriram as porteiras e disseram: “Rapaziada! Pode ir! Se vira!” E a rapaziada está até hoje se virando.

Como o senhor vê a recente aprovação do Estatuto da Igualdade Racial?

Costa – Acho que ficou aquém. Não é o ideal, mas foi um passo à frente. O que não pode é esconder debaixo do tapete, falar em democracia racial, dizer que está tudo muito bom. Sou a favor das cotas. Não acho que deva ser para sempre, nem que é o melhor remédio, mas tem que ser feito. As cotas não são uma benesse, uma premiação, um sorteio. São uma reserva para a pessoa que tem direito depois que faz o caminho do vestibular.

Além das cotas para o ensino universitário, o senhor defende cotas para modelos publicitários. Por quê?

Costa – A coisa mais importante é a autoestima do negro. A publicidade pode fazer muito pela integração racial e pela autoestima. Vamos pegar um exemplo qualquer: Você vê a publicidade de um menino negro calçando um tênis Nike. O garoto que está em casa se enxerga ali. Mas se você vê sempre um tipo lourinho, olhos azuis, ele pensa que não vai ter esse tênis nunca. Há uma classe média negra que não chega aos lugares onde a classe média não negra chega. Mas o poder aquisitivo é o mesmo. Até há pouco tempo, a família negra não ia ao Porcão. Pensava: ‘Será que vão deixar a gente entrar?’

Em 1982, quando o senhor organizou a primeira versão do Fala, Crioulo!, o país emergia da ditadura. O que o levou a fazer o livro naquele momento?

Costa – Toda vez que há fechamento político, o segmento negro, afro-brasileiro, afrodescendente, o nome que se queira dar, é o que mais sofre. Depois do movimento de 64, qualquer conversa em torno de reivindicação, de valorização da população afro-brasileira foi vetada. O Erlon Chaves no Festival da Canção apresentou a música Eu Também Quero Mocotó (1970), de Jorge Ben, e botou um coro negro tipo gospel. E o Erlon Chaves mandou assim: ‘Beijando essa loura, eu beijo todas as mulheres do Brasil’. Foi em cana. Você vê que o negócio tinha uma conotação muito séria. E se falava na democracia racial. Quando acabou o AI 5, veio a possibilidade de discutir. Pensei: é a hora de botar a boca no trombone e de dizer o que queremos, a que viemos e o que fazemos. Nasceu, então, a ideia do Fala, Crioulo!.

O senhor está lançando a edição revisada de Fala, Crioulo!. O que mudou nesses 27 anos?

Costa – Eu constato avanços porque nós temos hoje um número de profissionais liberais negros muito grande. Essas pessoas chegaram ao ponto em que chegaram à custa de muito sacrifício e de muita luta, mas não deixaram de olhar para trás. Antigamente, tinha aquela mística de que o negro quando evolui quer casar com branca e loura, quer ser o mulato rosado e não só para melhorar a raça. Era o passaporte para o status social. Quando progride, esquece que é negro. Agora, a coisa é diferente como pude constatar em todos os novos depoimentos. Essas pessoas sabem que existem como cidadãos, o que antigamente não havia. O pessoal se assume como tal. E não é só pelo modismo, do dreadlock. Há uma consciência por trás disso.

Acha que essa mudança resultou, por exemplo, no fato de haver, pela primeira vez, uma atriz negra como protagonista de novela no horário nobre?

Costa – A Taís Araujo como protagonista da novela do horário nobre pela primeira vez é fantástico. Ela já tinha sido protagonista da novela das sete. O mesmo aconteceu quando botaram o Heraldo (Pereira) na bancada do Jornal Nacional. Tem um lado positivo que chama a atenção, melhora a autoestima do negro. O problema é que em vez de ser uma coisa normal, eles gritam: ‘É o primeiro negro na bancada do Jornal Nacional’. Acaba virando uma excepcionalidade: ‘Temos um crioulo aqui, hein!’

O senhor coloca no título do livro, o termo crioulo, que é considerado depreciativo. Por quê?

Costa – Eu botei para desmitificar. Tirar a carga negativa. Etimologicamente, crioulo é o que nasceu na terra. A Yeda Crusius, agora, quase virou Joana d’Arc em uma festa crioula. Os gaúchos prezam esse termo. Na Argentina, no Uruguai, no Chile, é criollo, o da terra. O espanhol foi o invasor. O índio já estava lá. Os filhos dos espanhóis eram criollos. Os filhos dos escravos negros africanos eram os crioulos, porque eram nascidos já no Brasil.

Hoje há a discussão sobre a proibição do funk, assim como o samba foi perseguido no início do século passado. Existe essa analogia?

Costa – Existe, sem dúvida. O cara que andava de violão debaixo do braço, como diria mais tarde Zé Ketti, ou com um pandeiro embrulhado, era preso. Porque era malandro. Estamos falando do final do século 19, início do século 20. O funk, nas devidas proporções, é a mesma coisa. É uma expressão de uma juventude que quer dizer coisas e não tem como. É claro que em todo movimento cultural existem os desvios. Mas você não pode estigmatizar. Ao contrário, tem que considerar o que se faz de legal, e estimular. O funk é uma expressão legítima, como o rap.

FERNANDO PAULINO NETO | AE/DC/RIO DE JANEIRO

do diário catarinense

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